POSSE: Reinvindicar mídias sociais num mundo fragmentado

POSSE: Reivindicar mídias sociais num mundo fragmentado

Uma técnica simples oferece o melhor dos dois mundos: ter controle total da sua própria produção, mas ainda se fazer presente em plataformas de terceiros.

Texto original: Molly White
Tradução: Tiago Bugarin
Revisão: Cristiano Canguçu

No começo havia o LiveJournal, Friendster e MySpace. Então o Facebook ganhou a cena. Twitter veio logo depois mas ainda ia demorar um tempo até que integrasse funcionalidades hoje marcantes como menções, retweets e fotos no próprio site. Google+ veio e se foi. Então a aquisição do Twitter e seu rápido declínio forçou muitos a reconsiderar sua presença lá, com muitos adotando ou migrando completamente para alternativas como Mastodon ou para os recém-chegados Bluesky ou Threads.

Muitos de nós que usamos mídias sociais usamos múltiplas plataformas simultaneamente ou em sequência. Por vezes deixamos de usar uma plataforma organicamente e gradualmente passamos menos tempo nelas, enquanto nossa atenção — ou a atenção de nossos amigos — migram pra outros lugares. Nossas contas ficam dormentes e nem percebemos que saímos de lá. Noutras vezes acontece de maneira abrupta e chocante, como quando plataformas fecham, são compradas ou cancelam nossas contas, ou quando decisões das empresas que comandam elas fazem com que nossa permanência lá se torne insustentável.

Quando plataformas morrem é inevitável que as comunidades se percam na fragmentação. Algumas pessoas migram para as mesmas plataformas mas não conseguem se reconectar lá. Outras migram pra serviços diferentes que não são interoperáveis. Algumas desaparecem completamente. Cada movimento requer reconstrução e o processo de encontrar as pessoas que você conhecia e as comunidades que você se importava é trabalhoso. Cada movimento cobra seu preço e todo mundo tem um limite de quanta energia estão dispostos a gastar em novas plataformas que irão enfim, como suas predecessoras, se juntar ao cemitério de sites extintos. E com a mudança, posts antigos e conversas se perdem em contas abandonadas ou, ao fim, servidores desligados.

Enquanto as opções de plataformas crescem, essa dificuldade só aumenta. Quando a compra do Twitter por Elon Musk incentivou muitos a buscarem um substituto — ou pelo menos um planos B — havia uma longa lista de alternativas razoavelmente similares para escolher. Uns foram para o Mastodon. Outros que conseguiram um convite foram para o Bluesky (a) Depois a Meta lançou o Threads, e algumas pessoas foram pra lá. Uma cascata de alternativas indo de Post a Truth Social a Nostr atraiu outros.

Alguns de nós criaram contas em múltiplos novos lugares tentando manter contato com as pessoas com as quais nos importamos, para só então tentar lidar com os desafios de ter várias plataformas relativamente similares. Posto as mesmas coisas em cada uma delas? Serião alguns posts mais adequados ao Mastodon enquanto outros cairiam melhor no Bluesky? Como acompanhar conversas divididas em três diferentes aplicativos ou sites? Pra mim, o anúncio de uma nova plataforma com novas funcionalidades e novas pessoas agora provoca não um sentimento de excitação, mas um sentimento de “ah não, de novo não.”

Quando comecei a usar Mastodon além do Twitter até parecia gerenciável. Era possível copiar e colar meus posts entre as duas plataformas mesmo que fosse um tanto chato. Duas abas no navegador e dois aplicativos no meu celular pareciam algo sob controle. Quando adicionei Bluesky a tudo isso, aí já não parecia mais gerenciável. Postar um fio com fotos e suas descrições se tornou uma tarefa tediosa, especialmente com variações de limites de caracteres e outras funcionalidades. Mas eu não queria realmente abandonar essas plataformas porque cada uma era onde estavam grupos levemente distintos.

Eu acredito que federação é a solução de longo prazo para estes problemas. Eu sonho que um dia possamos interagir com pessoas entre plataformas sem dificuldades. Quando uma plataforma se extinguir, poderemos migrar para outra sem prejuízo de comunidade. Este é o futuro prometido, mas não estamos lá ainda. O Mastodon federa com vários serviços pequenos via protocolo ActivityPub mas não com alternativas de microblogging populares. (b) Bluesky está trabalhando em seu próprio protocolo de federação chamado AT Proto que por sua vez não é interoperável com ActivityPub. (c)

POSSE

A solução de curto prazo pra estes problemas é um acrônimo pouco conhecido chamado POSSE (Post (on) Own Site Syndicate Elsewhere, ou Poste no seu site, replique em todo canto) que não é um protocolo nem mesmo um software mas uma filosofia. Ao invés de publicar no servidor dos outros no Twitter, no Mastodon, no Bluesky, no Threads ou em qualquer que seja o serviço de microblogging que surgirá em breve, os posts são publicados localmente em um serviço de seu controle. (d) A partir daí o resto é simples (até fácil): plugando qualquer site de mídia social que você deseje e distribuindo seus através deles através da cópia do post lá diretamente ou publicando um trecho com um link de volta pro conteúdo original.

Da próxima vez que uma rede social aparecer, você poderá plugá-la no sistema que você já tem. E, da próxima vez que uma rede social morrer ou se tornar insustentável, você só precisará desconectá-lo. Com este modelo, mesmo quando uma plataforma morre você perde muito pouco: seus posts ainda permanecerão publicados e sob seu controle em seu site mesmo que suas cópias nos sites desconectados sejam abandonados ou deletados. E, idealmente, amigos que te seguiam no plataforma desconectada saberão onde encontrar seu site pessoal e poderão te seguir lá (e) ou te seguir em qualquer outra plataforma na qual você replique.

Além de nos devolver a real propriedade sobre o nosso trabalho, o que mais gosto na POSSE é a expansão massiva do que você pode publicar muito além das limitações impostas pela maioria das plataformas de mídias sociais (especialmente microblogging) que tentam forçar uma uniformização no estilo, no tamanho e na aparência dos posts. No Bluesky não posso postar mais que 300 caracteres, nem aplicar a maioria das formatações de texto, muito menos formatar meus posts com fontes e estilos que eu goste, usar notas de rodapé ou, sei lá, ter um JavaScript personalizado que transforme seu cursor num gato. Em meu próprio site, o céu (e a tolerância dos visitantes a cursores-gatos) é o limite. Aí então, o que não puder ser replicado integralmente para outras plataformas pode ser reformatado, cortado, posts podem ser picotados em fios para lidar com as limitações de caracteres, e o resto se consegue com um link de volta ao site para aqueles que querem ver o post original em toda sua glória.

A POSSE tem seus desafios. Primeiro, apesar de ela lidar bem com o lado da publicação das coisas, não resolve o problema das conversas fragmentadas em várias plataformas. Quando uma pessoa responde a um post distribuído a resposta usualmente permanece isolada naquela plataforma. (Alguns retroalimentam (inglês) respostas nos próprios sites mas eu escolhi não fazer isso.) Como eu uso ativamente as três plataformas onde distribuo meus posts de microblog, eu apenas respondo aos comentários nas plataformas que estiverem e aceito o fato de que às vezes conversas similares ocorrerão em vários lugares.

Segundo, e talvez o mais oneroso, não há um ecossistema de softwares para POSSE. A maioria das pessoas que eu conheço escreveu suas próprias (tipicamente de código aberto) implementações como eu fiz (inglês). Algumas pessoas corajosas fazem tudo, ou quase tudo, manualmente, copiando e colando fios em múltiplos serviços. Fora disso as opções (inglês) são escassas, apesar de existir um plugin para Wordpress e ferramentas como Brid.gy (inglês) e IFTTT (inglês).

Apesar desses desafios, a POSSE é empoderadora para aqueles de nós que desejamos cultivar um cantinho da web fora dos jardins murados das grandes plataformas (inglês) sem evitá-las completamente. Eu posso manter uma presença nas plataformas que eu gosto e as conexões que me importam com as pessoas de lá enquanto ainda mantenho controle sobre as coisas que eu escrevo e a liberdade das limitações dessas plataformas. E da próxima vez que uma plataforma de mídia social esgotar o capital de risco, ou o dono bilionário decidir que eu causo problema demais, eu ainda estarei aqui, escrevendo. Considere se juntar a mim.

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Notas de Rodapé

(a) Posteriormente o Bluesky abriu sua plataforma para criação de contas sem convites em fevereiro de 2024, cera de um ano após a compra do Twitter por Elon Musk.

(b) Threads está trabalhando na integração com ActivityPub mas ainda é uma funcionalidade optativa e limitada. Usuários do Threads não podem seguir usuários do Mastodon ou responder a seus posts e uma migração simples do Threads para Mastodon não é possível.

(c) Existem rumores (inglês) de que um dia será possível mas certamente não parece ser prioridade para ActivityPub nem para AT Proto.

(d) “Controle” pode significar o que você quiser. Para mim, eu gosto de ter propriedade de fato dos sites primários onde eu publico rodando em servidores e domínios que alugo. Alguns vão além e tem o servidor físico próprio. Outros se contentam em publicar em sites alocados em vários hospedeiros. Outros ainda consideram publicar em plataformas de terceiros (talvez com backups ou pelo menos com opções de exportar os dados) como um nível aceitável de controle.

(e) Serviços como RSS permitem que pessoas sigam sites pessoais sem o intermédio de uma plataforma como Twitter.

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